Afinal, quando, como e onde
começou a mistura do jazz com o samba que resultou na música instrumental
brasileira moderna?
A semente que germinou essa fusão
foi plantada em abril de 1953 pelo violonista Laurindo Almeida e o saxofonista
Bud Shank quando gravaram o seminal disco "Brazilliance", em Los Angeles. Nesse
disco experimental, o violonista brasileiro e o saxofonista de jazz apresentaram
uma novidade revolucionária: as improvisações de Shank tocando repertório
brasileiro em linguagem jazzística. Em grande forma, Shank adaptou-se
inteiramente ao contexto, assentando as bases do que na década seguinte
chamariam de jazz-samba, mas no Brasil ficou conhecido por samba-jazz. O impacto
daquele disco em nosso meio musical foi extraordinário, abrindo as portas para
um estilo até então inimaginável. Curiosamente, na época um conhecido
saxofonista brasileiro declarou enfaticamente que era impossível improvisar
sobre música brasileira, porém, posteriormente, ele adotou a improvisação
jazzística na temática brasileira dos seus discos.
"Brazilliance" foi editado no
Brasil pela gravadora Musidisc e conquistou imediatamente uma nova geração de
músicos que vieram a ser figuras de relevo na bossa nova e, posteriormente, no
samba-jazz.
Outro fator importante precursor
do samba-jazz no Brasil foi o revolucionário disco "Turma da Gafieira", com
Altamiro Carrilho (flauta), Zé Bodega e Maestro Cipó (saxes-tenor), Raul de
Souza (trombone), Sivuca (acordeão), Baden Powell (violão), José Marinho (baixo)
e Edison Machado (bateria). Além das improvisações nos solos, a atuação de
Edison Machado incorporou uma inovação que causou surpresa, desagrado e
controvérsia entre os renitentes cultores do samba: ele utilizou os pratos da
bateria em seus estimulantes acompanhamentos, algo totalmente inédito e
inconcebível para os músicos da época.
Mas, o que é improvisação
jazzística? Para um músico, improvisar significa criar novas melodias sobre a
estrutura harmônica de uma composição ao sabor da sua imaginação. Em outras
palavras, ter total liberdade para expressar sua própria concepção explorando
suas idéias melódicas num clima prevalecendo a espontaneidade e a originalidade,
injetando variações de coloridos tonais, nuances rítmicas e inflexões. Por isso
o jazz é a música do indivíduo e a improvisação é um elemento essencial da sua
linguagem.
Para avaliar esses elementos
inseridos pelos solistas, é suficiente comparar as inúmeras gravações das mesmas
músicas por diversos músicos, constatando que todas diferem das demais porque
cada músico improvisa à sua própria maneira.
A prova que a maioria dos
instrumentistas brasileiros foi influenciada pelo jazz era evidenciada nas jam
sessions que se realizavam no Rio de Janeiro nos anos 50 e 60. Essas sessões
informais aconteceram nos auditórios da Associação Brasileira de Imprensa,
Associação Cristã de Moços, Clube Mackenzie, Fluminense Futebol Clube e
Associação Atlética Banco do Brasil, entre outros locais, atraindo numeroso
público. Entre seus habituais participantes contavam-se Julio Barbosa, Clélio
Ribeiro, Santos e Wagner Naegele (trompetes), Paulo Moura, Jorginho, Zé Bodega,
Moacir Santos, Maestro Cipó, Aurino Ferreira, Moacir Silva e Hélio Marinho
(saxofones), K-Ximbinho (clarinete), Nelson dos Santos, Norato, Astor, Macaxeira
e Duba (trombones), Dinarte Rodrigues e Bola Sete (guitarra), Hugo Lima, Chaim
Lewak e Fats Elpidio (piano), Vidal, Luiz Marinho e José Marinho (baixo),
Anestaldo, Paulinho Magalhães e Sutti, (bateria).
Nos anos 50, o radialista Paulo
Santos promoveu dois concertos de jazz no teatro Muncipal do Rio de Janeiro, com
amplo sucesso.
A partir de 1958, a bossa nova
conquistou imediatamente a juventude brasileira ocasionando uma radical
transformação melódico-harmônico-rítmica na nossa música popular, inaugurando o
período moderno da MPB.
Dois acontecimentos importantes
ocorridos em 1961 deram um impulso extraordinário à música brasileira moderna
quando tocaram no Brasil os conjuntos American Jazz Festival e o quinteto do
trompetista Dizzy Gillespie. Seus músicos ficaram encantados ao ouvirem bossa
nova pela primeira vez, cuja existência desconheciam. Ao regressarem, Dizzy
Gillespie, o trombonista Curtis Fuller, os saxofonistas Coleman Hawkins e Zoot
Sims, o flautista Herbie Mann e o pianista Lalo Schifrin gravaram discos com
temas de bossa nova. Em março de 1962, o saxofonista Stan Getz gravou o disco
"Jazz Samba" com o quarteto do guitarrista Charlie Byrd; seu sucesso imediato e
estrondoso traduziu-se na venda de 1 milhão e 600 mil cópias na primeira semana.
.
Motivado pelo sucesso fulminante
da nova música brasileira, em novembro de 1962, Sidney Frey, presidente da
gravadora Áudio Fidelity, organizou um concerto de bossa nova no Carnegie Hall,
o templo da música americana, em Nova Iorque. Vários músicos, cantores e
conjuntos brasileiros apresentaram-se no evento, aumentando o interesse dos
americanos pela bossa nova. O concerto foi gravado pela Áudio Fidelity no disco
"Bossa Nova at Carnegie Hall".
As emissoras de rádio americanas
tocavam discos de bossa nova sem parar. Foi a abertura não oficial de um mercado
internacional de trabalho para nossos músicos e cantores.
Paralelamente, músicos e cantores
americanos gravaram uma enxurrada de discos de bossa nova, vários com
participações de artistas brasileiras, incluindo Sérgio Mendes, Tião Neto,
Hélcio Milito e Chico Batera.
Enquanto isso, as noites no
lendário Beco das Garrafas, em Copacabana, atraíam platéias de jovens ávidos em
ouvir a nova música. Os quatro clubes daquele logradouro (Little Club, Bottle's,
Bacará e Ma Griffe) lotavam todas as noites. Nesse particular, o Beco das
Garrafas foi a versão nacional da Rua 52, em Nova Iorque, que nos anos 40 foi o
pólo efervescente onde tocavam os grandes jazzmen da época. Todas as noites
acontecia algo novo no Beco, fosse uma nova composição, um arranjo mais
elaborado, o aparecimento de um músico ou cantor de talento, e o ambiente
fervilhava até alta madrugada. Apresentaram-se nos clubes do Beco, entre
inúmeros outros, Sérgio Mendes, Dom Salvador, Luiz Eça, Raul de Souza, J. T.
Meirelles, Agostinho dos Santos, Baden Powell, Mauricio Einhorn, Milton Banana,
Claudette Soares, Alaíde Costa, Marisa Gata Mansa, Leny Andrade (com 17 anos,
sendo menor de idade era acompanha pelo pai), Pery Ribeiro, Julio Barbosa,
Maestro Cipó, Hugo Marotta, Silvio Cesar, Orlann Divo, Tenório Junior, Jorginho
Ferreira da Silva, Edson Maciel, João Luiz Maciel, Durval Ferreira, Dom Um
Romão, Chico Batera, Victor Manga, Tião Neto, Rosinha de Valença, Manuel Gusmão,
Luiz Carlos Vinhas, Hélcio Milito, Bebeto Castilho, Sylvinha Telles, Dóris
Monteiro, Wanda Sá, Tito Madi, Sergio Ricardo, Candinho, Mario Castro Neves,
Osmar Milito, Aurino Ferreira, Sérgio Barrozo, Roberto Menescal, Alberto
Castilho, Ronaldo Vilela, Oscar Castro Neves, Jorge Ben, Toninho Oliveira,
Sérgio Augusto, Marcos Valle, Lúcio Alves, Antonio Adolfo, Chico Feitosa, Mario
Telles, Moacir Marques, Juarez Araújo e Odette Lara.
Nesse período surgiram os trios
de piano-baixo-bateria que fariam história tocando temas brasileiros com
improvisação jazzística, o que germinou e cristalizou definitivamente o
samba-jazz. Entre dezenas deles, despontaram Tamba Trio (LPs "Tamba Trio",
"Avanço" e "Tempo"), Sambalanço Trio (LP "Sambalanço Trio"), Milton Banana Trio
(LPs "Samba é isso - vol. 4", "Balançando" e "Vê"), Salvador Trio (LPs "Salvador
Trio" e "Rio 65 Trio"), Tenório Junior Trio (LP "Embalo"), Bossa Três (LP "Bossa
Três em Forma"), Jorge Autuori Trio (LPs "Vols. 1 & 2"), Primo Trio (LP
"Sambossa"), além do Embalo Trio, Bossa Jazz Trio e Trio
3-D.
Outras formações que brilharam no
Beco foram o sexteto Sérgio Mendes & Bossa Rio (LP "Você Ainda não Ouviu
Nada!"), Meirelles e Os Copa Cinco (LPs "O Som" e "O Novo Som"), os conjuntos de
Raul de Souza (LPs "Impacto" e "À Vontade Mesmo"), Baden Powell (LPs "À Vontade"
e "Tempo Feliz", com Maurício Einhorn), Edison Machado (LP "Edison Machado é
Samba Novo"), Paulo Moura (LPs "Quarteto" e Hepteto"), Luiz Henrique (LP "A
Bossa Moderna de Luiz Henrique"), Julinho Barbosa (LP "100% Bossa"), Luiz Carlos
Vinhas (LP "Novas Estruturas"), Moacir Marques (LP "Jazz e Bossa Nova"), Os
Catedráticos (LP "Ataque"), Fats Elpidio (LP "Piano Bossa Nova"), Sete de Ouros
(LP "Impacto"), Victor Assis Brasil (LP "Desenhos"), Waltel Branco (LP "Mancini
Também É Samba), Nelson dos Santos (LP "Brasil Bossa
Nova").
Na mesma época surgiram em São
Paulo dezenas de músicos e conjuntos que aderiram ao samba-jazz, entre os quais
Zimbo Trio, com Amilton Godoy, Luiz Chaves e Rubens Barsotti (LPs "Zimbo",
"Zimbo convida Sonny Stitt" e "Caminhos Cruzados"), Breno Sauer (LP "4 na
Bossa"), Luiz Loy Quinteto, Conjunto Som 4, Jongo Trio (LP "Jongo Trio"),
Quarteto Novo, Manfred Fest Trio (LPs "Bossa Nova, Nova bossa", "Evolução" e
"Alma Brasileira"), Pedrinho Mattar Quarteto, Guilherme Vergueiro (LPs
"Naturalmente" e "Live in Copenhagen"), Erlon Chaves (LP "Sabadabada"), Sambrasa
Trio, Som 3, Os Cinco-Pados, Sansa Trio, Octeto de Cesar Camargo Mariano, Casé
(LP "Samba Irresistível"), Luiz Chaves (LP "Projecão"), Paulinho Nogueira, André
Geraissati (fundador do emblemático Grupo D"Alma) e muitos
mais.
Abrindo um parêntesis, no final
dos anos 50, antes de afirmação da bossa nova, dois músicos brasileiros foram
para os Estados Unidos em busca de novas oportunidades: o guitarrista e
violonista Bola Sete e o pianista e compositor João Donato, sendo bem-sucedidos.
Bola Sete tocou com Dizzy Gillespie e Vince Guaraldi.além de gravar vários
discos; Donato atuou com Mongo Santamaría, Bud Shank, Tito Puente, Astrud
Gilberto e outros.
Durante suas férias no Rio de
Janeiro, em 1963, Donato gravou dois dos melhores discos da sua carreira: "Muito
à Vontade" e "A Bossa Muito Moderna de Donato". Regressando ao Brasil em 1973,
retomou sua carreira, mas depois sofreu uma paralisação; a partir dos anos 80
trabalhou intensamente e continua até hoje apresentando-se em inúmeros países do
mundo, incluindo Estados Unidos, Europa e Japão, onde granjeou um grande público
cativo, além de gravar abundantemente.
Com o sucesso do rock & roll
em todo o mundo nos anos 60, a bossa nova e o samba-jazz deixaram de ser a
música da juventude brasileira porque ganhava força e popularidade a Jovem
Guarda, invadindo como um tsunami os meios de comunicação do pais. Foi quando
Mauricio Einhorn declarou sua famosa frase: "A saída para o músico brasileiro é
o Aeroporto do Galeão", que alguns mal-informados atribuem a Tom Jobim. Muitos
deixaram o país em busca de outras paragens para tentar a sorte. Alguns foram
bem-sucedidos, outros nem tanto. Daqui partiram Sergio Mendes, Dom Salvador,
Oscar Castro Neves, Eumir Deodato, Manfredo Fest, Luiz Bonfá, Guilherme
Vergueiro, Edison Machado, Julio Barbosa, Raul de Souza, J. T. Meirelles, Hélcio
Milito, Rosinha de Valença, Wanda Sá, Luiz Henrique, Fernando Martins, Cláudio
Queiroz (Cacau), Romero Lubambo, Nilson Matta, Hélio Alves, Duduka da Fonseca,
Portinho, Mario Castro Neves, Raul Mascarenhas, Claudio Roditi, Marcos Resende,
Alfredo Cardim, Paulo Braga, Ion Muniz, Edson Lobo, Tita, Rodrigo Botter Maio,
Hélio Celso, Haroldo Mauro Junior, Irio de Paula, Nenê, Flavio Goulart, Cleber
Alves, Nico Assumpção, Tania Maria e outros. Vale ressaltar que vários desses
músicos tocam com freqüência em festivais de jazz europeus e
americanos.
Enquanto no Brasil a bossa nova e
o samba-jazz estavam em recesso forçado devido às preferências do público
roqueiro, em outros países continuavam sendo apreciados e cultuados, valorizando
nossos artistas, que ganharam novos mercados internacionais solidificando suas
carreiras.
Essa valorização no exterior,
inclusive com a edição de centenas de discos de bossa nova e samba-jazz nos
Estados Unidos, Europa e, principalmente, Japão, ocasionou uma reviravolta no
Brasil com o retorno do samba-jazz no repertório dos músicos mais
jovens.
Deve-se mencionar que a
realização dos dois Festivais de Jazz de São Paulo, em 1978 e 1980, Rio Jazz
Monterey Festival, no Rio de Janeiro, em 1980, despertaram o interesse de
milhares de pessoas, que passaram a dar maior atenção à nossa música
instrumental. Em decorrência desses três eventos, que movimentaram as duas
maiores cidades do país, as novas gerações de músicos surgidas a partir dos anos
80/90 trouxeram uma injeção de sangue novo ao samba-jazz.
Entre os que firmaram-se citamos
os pianistas Hamleto Stamato, Kiko Continentino, David Feldman, Marcio Hallack,
Itamar Assiere, André Dequech, Jota Moraes, Delia Fischer, Silvia Góes, Rique
Pantoja, Rafael Vernet, Adriano Souza e André Mehmari, baixistas Paulo Russo,
Dôdo Ferreira, Célio de Barros, Augusto Mattoso, Rodolfo Stroeter, Arismar do
Espírito Santo, Sizão Machado, Zeca Assumpção, Kiko Mire, Dudu Lima, Adriano
Giffoni, Zé Luiz Maia e Enéias Xavier; bateristas Rafael Barata, Duda Neves,
Esdras "Nenem" Ferreira, André "Limão" Queiroz, Carlos Bala, Lincoln Cheib,
Erivelton Silva, João Cortez, Ivan Conti, Edu Ribeiro, Edvaldo Ilzo e Magno
Bissoli; guitarristas Magno Alexandre, Felipe Poli; Hélio Delmiro, Lula Galvão,
Cláudio Guimarães, Juarez Moreira, Geraldo Vianna, Tabajara Melo, Weber Lopes e
Gilvan de Oliveira; trompetistas Daniel D'Alcantara, Paulinho Trompete, Altair
Martins, Nilton Rodrigues e Jessé Sadoc, saxofonistas Nailor Proveta, Teco
Cardoso, Marcelo Martins, Eduardo Neves, Zé Canuto, Daniel Garcia, Chico Amaral,
Fernando Trocado, Widor Santiago, Cacá Malaquias, Cleber Alves e Vinicius Dorin;
trombonistas Vittor Santos, Bocato, Valdivia Ayres e Roberto Marques..A lista é
virtualmente interminável.
O samba-jazz chegou
para ficar conquistando uma relevante posição na música brasileira. Apesar de
combatido pelos renitentes xenófobos de plantão, que desdenhosamente insistem em
afirmar tratar-se de música americana, continua conquistando novos talentos e
adeptos no Brasil e em vários países do mundo.
A despeito desses handicaps, o
samba-jazz resiste bravamente, nossos músicos prosseguem espargindo sua música
em concertos, casas noturnas, bares, quiosques, espaços oficiais e alternativos,
com boa afluência de público, além de continuar sendo grande atração no Japão,
onde tem público cativo, nos festivais europeus e
americanos.
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